Por Paulo Roberto Reis
Psicólogo/Mestre em Linguagens
O diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem se tornado um tema cada vez mais presente na clínica psicológica contemporânea, especialmente à medida que cresce a compreensão sobre a diversidade de manifestações do espectro. Durante muito tempo, o autismo foi associado apenas a quadros mais evidentes na infância, o que contribuiu para que muitos indivíduos atravessassem a adolescência e a vida adulta sem um nome para suas experiências. Conforme aponta Lorna Wing (1996), o espectro autista é amplo e inclui diferentes níveis de suporte, o que exige um olhar clínico sensível e contextualizado para sua identificação.
Muitos adultos que recebem o diagnóstico tardio relatam uma trajetória marcada por sentimentos de inadequação, dificuldades sociais persistentes e interpretações equivocadas de seus comportamentos por parte da família, da escola e do ambiente de trabalho. Segundo Tony Attwood (2007), é comum que pessoas com TEA de nível 1 desenvolvam estratégias de camuflagem social, mascarando suas dificuldades ao longo da vida, o que pode atrasar significativamente o reconhecimento clínico do transtorno. Esse mascaramento, embora funcional em alguns contextos, frequentemente gera sofrimento psíquico acumulado.
O diagnóstico, mesmo quando tardio, exerce um papel fundamental na organização subjetiva do indivíduo. Receber um diagnóstico de TEA não significa rotular ou limitar, mas, ao contrário, possibilitar compreensão, validação e acesso a intervenções adequadas. Como destaca Simon Baron-Cohen (2003), compreender o funcionamento neurodivergente permite que a pessoa reconheça suas potencialidades e desafios, promovendo um olhar menos patologizante e mais inclusivo sobre si mesma.
Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica se apresenta como um instrumento essencial para o diagnóstico diferencial e para a compreensão do funcionamento cognitivo e emocional do indivíduo. Esse processo envolve a aplicação de testes padronizados, entrevistas clínicas e análise do histórico de desenvolvimento, permitindo identificar padrões de atenção, memória, linguagem e funções executivas. Conforme Russell Barkley (2015), avaliações bem conduzidas são fundamentais para diferenciar o TEA de outros quadros, como o TDAH, frequentemente comórbido ou confundido.
Além da identificação diagnóstica, a avaliação neuropsicológica contribui diretamente para o planejamento terapêutico, oferecendo subsídios para intervenções personalizadas. Isso é particularmente importante em casos de diagnóstico tardio, nos quais o indivíduo já construiu repertórios adaptativos e crenças sobre si mesmo que precisam ser cuidadosamente trabalhados. A compreensão das funções cognitivas permite intervenções mais assertivas, respeitando a singularidade de cada pessoa dentro do espectro.
A psicoterapia, especialmente dentro da abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), tem se mostrado eficaz no acompanhamento de pessoas com TEA, inclusive aquelas diagnosticadas tardiamente. A TCC possibilita a identificação e reestruturação de pensamentos disfuncionais, o desenvolvimento de habilidades sociais e a regulação emocional. De acordo com Judith Beck (2013), a intervenção cognitivo-comportamental é estruturada, colaborativa e orientada para objetivos, o que favorece a adaptação às necessidades do paciente.
No caso de adultos com diagnóstico tardio, a psicoterapia também desempenha um papel importante na ressignificação da própria história. Muitos pacientes chegam ao consultório com sentimentos de frustração, baixa autoestima e até mesmo quadros de ansiedade e depressão associados a anos de incompreensão. O espaço terapêutico torna-se, então, um lugar de acolhimento, validação e reconstrução narrativa, onde a pessoa pode compreender sua trajetória sob uma nova perspectiva.
Outro aspecto relevante diz respeito ao trabalho com familiares e redes de apoio. O diagnóstico tardio não impacta apenas o indivíduo, mas também aqueles que convivem com ele. Orientar a família sobre o TEA, suas características e formas de manejo contribui para relações mais saudáveis e empáticas. Como aponta Uta Frith (2003), o entendimento do autismo deve ir além do indivíduo, abrangendo o contexto social em que ele está inserido.
Na minha prática clínica, tenho acompanhado de perto pessoas que receberam o diagnóstico de TEA na adolescência e na vida adulta, bem como seus familiares. Percebo que, embora o diagnóstico tardio possa trazer um impacto inicial significativo, ele também abre portas para o autoconhecimento e para intervenções mais adequadas. O trabalho terapêutico que desenvolvo busca integrar avaliação cuidadosa, escuta qualificada e estratégias baseadas em evidências, respeitando sempre a singularidade de cada história.
Atuar com pessoas do espectro autista, especialmente em casos de diagnóstico tardio, exige não apenas conhecimento técnico, mas também sensibilidade ética e compromisso com a promoção da autonomia e da qualidade de vida. A psicologia, nesse sentido, desempenha um papel fundamental na construção de caminhos possíveis, auxiliando o indivíduo a compreender quem é, como funciona e como pode se relacionar com o mundo de maneira mais autêntica e saudável.
Referências
ATTWOOD, Tony. The Complete Guide to Asperger’s Syndrome. London: Jessica Kingsley Publishers, 2007.
BARKLEY, Russell A. Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. New York: Guilford Press, 2015.
BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed, 2013.
BARON-COHEN, Simon. The Essential Difference: Men, Women and the Extreme Male Brain. London: Penguin Books, 2003.
FRITH, Uta. Autism: Explaining the Enigma. Oxford: Blackwell Publishing, 2003.
WING, Lorna. The Autistic Spectrum: A Guide for Parents and Professionals. London: Constable, 1996.
