“NO MEU TEMPO NÃO TINHA AUTISMO” … será mesmo?

Por Paulo Roberto Reis

Psicólogo/Esp.Gerontologia

 

Durante muito tempo, escutamos frases como “no meu tempo não tinha autismo”, geralmente carregadas de comparação e estranhamento diante do aumento de diagnósticos atuais. No entanto, essa afirmação não se sustenta à luz da ciência. O autismo sempre existiu, mas não era compreendido, nomeado ou diagnosticado como hoje. O que mudou não foi a existência do transtorno, mas o nosso olhar sobre ele. A evolução da ciência, da medicina e da psicologia permitiu identificar aquilo que antes passava despercebido ou era interpretado de forma equivocada.

Os dados epidemiológicos mostram um aumento significativo nos diagnósticos ao longo das décadas, o que muitas pessoas interpretam como “surgimento” do autismo. No entanto, estudos indicam que esse crescimento está fortemente relacionado à ampliação dos critérios diagnósticos, maior acesso à informação e mais profissionais capacitados para identificar o transtorno. Hoje, por exemplo, estima-se que cerca de 1 em cada 31 crianças seja diagnosticada com TEA em alguns países, enquanto há poucas décadas esse número era muito menor. Isso não significa necessariamente que há mais autismo, mas sim que estamos conseguindo enxergá-lo melhor.

Além disso, estudos globais mostram que a prevalência estimada do autismo passou de cerca de 1 em 400 pessoas na década de 1990 para aproximadamente 1 em 100 nos anos mais recentes. Esse aumento acompanha o avanço das classificações diagnósticas, como as mudanças no DSM, que passaram a considerar o autismo como um espectro, incluindo diferentes níveis de suporte e manifestações clínicas. Ou seja, pessoas que antes não se encaixavam em critérios restritos passaram a ser reconhecidas dentro do espectro.

Historicamente, indivíduos com características autistas eram rotulados de forma pejorativa ou reducionista. Termos como “esquisito”, “estranho”, “doidinho” ou “antissocial” eram frequentemente utilizados para descrever comportamentos que hoje entendemos como manifestações do TEA. Em muitos contextos, especialmente em áreas rurais ou comunidades mais isoladas, essas pessoas eram invisibilizadas, escondidas ou simplesmente não tinham acesso a qualquer tipo de avaliação ou cuidado especializado.

Outro fator importante é que, no passado, havia uma enorme limitação no acesso à educação, saúde mental e serviços especializados. Sem diagnóstico, não havia intervenção. Sem intervenção, não havia desenvolvimento adequado das habilidades sociais, cognitivas e emocionais. Muitas pessoas autistas viveram toda a vida sem saber sua condição, sendo interpretadas apenas como “difíceis”, “quietas demais” ou “problemáticas”, o que contribuiu para sofrimento psíquico e exclusão social.

No Brasil, inclusive, só recentemente começamos a ter dados mais concretos. O Censo de 2022 apontou cerca de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo, representando aproximadamente 1,2% da população. Esse dado reforça que o autismo não é raro, mas historicamente subdiagnosticado. Além disso, a inclusão do TEA em levantamentos oficiais é algo relativamente recente, o que mostra o quanto essa realidade ainda está em construção no país.

Portanto, o mito de que “antes não existia autismo” revela muito mais sobre a falta de informação do passado do que sobre a realidade atual. Hoje, temos mais conhecimento, mais acesso e mais sensibilidade para reconhecer a diversidade do funcionamento humano. O autismo não surgiu agora, ele sempre esteve presente, mas silenciado por desconhecimento, preconceito e ausência de políticas públicas adequadas.

Diante disso, a psicoterapia assume um papel fundamental, tanto na avaliação quanto no acompanhamento de pessoas com TEA. A partir da minha experiência clínica como psicólogo, atuando com crianças, adolescentes e famílias, percebo o quanto o diagnóstico bem conduzido pode transformar trajetórias. A Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, tem se mostrado uma abordagem eficaz no desenvolvimento de habilidades sociais, regulação emocional e adaptação funcional. Mais do que um rótulo, o diagnóstico é uma porta de acesso ao cuidado, à compreensão e à construção de uma vida com mais autonomia e qualidade.

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