O ENVELHECER TAMBÉM ACONTECE NAS PALAVRAS: reflexões sobre minha dissertação de mestrado

Por Paulo Roberto Reis

Psicólogo/Gerontólogo/Mestre em E. de Linguagens

 

No dia 23 de abril do presente ano, tive a alegria e a responsabilidade de defender minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens (PPGEL), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). O trabalho, intitulado O campo lexical do envelhecer em Memórias Póstumas de Brás Cubas, representa o resultado de uma caminhada de pesquisa que uniu duas áreas que atravessam minha trajetória profissional: a linguagem e o envelhecimento humano.

A dissertação parte de uma pergunta simples, mas profunda: de que forma o envelhecimento é construído pela linguagem? Para respondê-la, investiguei como Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, utiliza palavras e expressões relacionadas ao envelhecer, à velhice e às transformações humanas ao longo do tempo. Mais do que uma análise literária, trata-se de uma reflexão sobre os modos como compreendemos e significamos a experiência de envelhecer.

Um conceito central da pesquisa é o de léxico. Na perspectiva do linguista Eugenio Coseriu, o léxico não é apenas um conjunto de palavras armazenadas em um dicionário. Ele constitui um patrimônio cultural de uma comunidade, revelando formas de perceber, interpretar e organizar a realidade. As palavras que utilizamos para falar da velhice, da maturidade, do corpo e do tempo carregam valores, crenças, memórias e visões de mundo construídas historicamente.

Durante a investigação, foi possível identificar diferentes conjuntos de palavras, organizados em grandes campos de significação. Esses macrocampos permitiram compreender que o envelhecimento aparece na obra sob múltiplas perspectivas. O envelhecer biológico reúne referências ao corpo, às mudanças físicas, às limitações e ao avanço da idade. Já o envelhecer psicológico contempla emoções, memórias, percepções subjetivas e modos de compreender a própria existência ao longo da vida.

O envelhecer social, por sua vez, envolve os papéis desempenhados pelos indivíduos, as relações familiares, os vínculos afetivos, o reconhecimento social e as expectativas que a sociedade constrói em torno da velhice. Essa divisão não significa que os fenômenos ocorram separadamente. Pelo contrário: a pesquisa evidenciou que o envelhecimento é uma experiência complexa, dinâmica e profundamente integrada, na qual corpo, mente e sociedade dialogam constantemente.

Essa complexidade se torna ainda mais evidente nos dias atuais. Vivemos mais tempo do que as gerações anteriores, mas também enfrentamos novos desafios relacionados à longevidade, às mudanças familiares, às exigências sociais e aos preconceitos associados à idade. Compreender o envelhecimento exige ultrapassar explicações simplistas e reconhecer que envelhecer não é apenas acumular anos, mas construir significados sobre a própria trajetória de vida.

Como psicólogo, essa pesquisa dialoga diretamente com minha prática clínica. Ao longo dos atendimentos, percebo diariamente que as pessoas não sofrem apenas pelos acontecimentos que vivem, mas também pelas narrativas que constroem sobre si mesmas. As palavras utilizadas para falar da idade, das perdas, das conquistas e das transformações influenciam a forma como cada pessoa experimenta o próprio envelhecimento. Estudar o léxico do envelhecer é, portanto, também estudar modos de existir, sentir e atribuir sentido à vida.

Em breve, a dissertação estará disponível para consulta no repositório acadêmico do PPGEL-UNEB. Encerrar esta etapa representa a concretização de um projeto construído com muito estudo, dedicação e diálogo interdisciplinar. Registro minha profunda gratidão à Dra. Profa. Celina Márcia de Souza Abbade, minha orientadora, pesquisadora de referência e também colega psicóloga, cuja competência, generosidade intelectual e rigor científico foram fundamentais ao longo de todo o percurso. Agradeço igualmente aos professores, colegas, familiares, amigos e pacientes que, direta ou indiretamente, contribuíram para esta caminhada. Espero que esta pesquisa possa ampliar as reflexões sobre o envelhecimento, mostrando que as palavras que escolhemos para falar do envelhecer também revelam como compreendemos o ser humano, sua história e seus modos de existir no mundo.

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