Por Alécia Lustosa Reis
Psicóloga | CRP 03/36351
Querido(a) leitor(a), geralmente transmitimos informações sobre temas específicos, mas nem sempre revelamos um pouco de quem está por trás da escrita. Dessa vez faço de uma maneira diferente. É com muita alegria que compartilho um pouco da minha trajetória neste texto e convido você a se aproximar da psicóloga que se faz presente neste espaço, para além da formação ou área de atuação. Quero contar a você sobre os encontros, as experiências e as escolhas que vêm construindo quem sou como profissional.
Minha escolha pela psicologia parte de um olhar atento, uma escuta sensível e de um cuidado com o outro que foi construído desde cedo em minha vida. Nesta trajetória, percebi que essas são algumas das habilidades fundamentais para ser uma boa profissional. Cada encontro com cada pessoa me fez crescer enquanto pessoa e psicóloga.
Na minha prática, pude acompanhar diferentes histórias de vida e seus modos singulares de enfrentar o sofrimento. Estive ao lado de mulheres grávidas no fortalecimento do autocuidado, de idosos que buscavam resgatar sua identidade após deixarem suas potencialidades e desejos em segundo plano e de adultos que encontravam no grupo um espaço para compartilhar dores e construir novas perspectivas. Além disso, em conjunto com uma equipe, fui rede de apoio e acolhimento a pessoas migrantes e refugiadas, atravessadas por perdas, mudanças e tantos outros desafios. Também atuei como palestrante, promovendo reflexões sobre saúde mental, e como pesquisadora, compreendendo que, por trás de cada atendimento clínico, existe estudo constante, compromisso ético e responsabilidade com o cuidado oferecido.
Cada uma dessas experiências ampliou meu olhar para as diferentes formas de sofrimento humano e fortaleceu em mim a compreensão de que o cuidado se constrói na relação. Então, notei o quanto uma atuação com compromisso e dedicação impacta no bem-estar da pessoa ou do grupo que está sendo acolhido.
Dentre os encontros com cada história de vida trazida nos atendimentos psicoterapêuticos, foi justamente acompanhando familiares cuidadores que encontrei um sentido maior para minha atuação. Algumas vivências pessoais me permitiram sentir mais de perto e olhar para as dores dessas pessoas que constantemente se dedicam a cuidar de alguém que amam, e que, aos poucos, acabam colocando suas próprias necessidades em segundo plano. Assim, compreendi cada vez mais a importância de voltar meu olhar para aqueles que cuidam.
Quando falo em familiar cuidador, me refiro às pessoas que assumem, no cotidiano, o cuidado de alguém. São filhos, filhas, esposas, maridos, mães, pais, irmãos, avós ou outros familiares que reorganizam suas rotinas para acompanhar um tratamento, oferecer apoio emocional, auxiliar em tarefas diárias ou simplesmente estar presentes diante de uma condição de saúde. Muitas vezes, esse cuidado acontece de forma silenciosa e tão naturalizada que o próprio cuidador deixa de reconhecer o quanto também precisa ser cuidado.
Mas acompanhando familiares cuidadores observei que a psicoterapia é um espaço onde esse cuidador também pode ser cuidado, encontrando novas possibilidades de existir. Acredito que este pode ser um lugar onde esse movimento encontra uma pausa. Um espaço de presença, escuta e acolhimento para que o familiar cuidador possa reconhecer sua própria experiência, compreender seus limites e reencontrar formas de cuidar de si sem deixar de cuidar de quem ama. É esse caminho que escolhi trilhar como psicóloga e gestalt-terapeuta. Espero que este também possa ser um lugar de encontro para aqueles que desejam voltar o olhar para si. Se, ao longo desta leitura, você se reconheceu em alguma dessas experiências, saiba que não precisa atravessar tudo sozinha(o), juntas(os) podemos construir esse caminho passo a passo.
