Por Paulo Roberto Reis
Psicólogo | Mestre em Estudo de Linguagens | Especialista em Longevidade
Envelhecer não transforma um adulto em criança. Parece uma afirmação óbvia, mas, na prática clínica, percebo que essa fronteira muitas vezes é ultrapassada dentro das próprias famílias. Filhos e familiares, preocupados com a segurança, começam a decidir pelo idoso aquilo que ele deve vestir, comer, fazer ou onde pode ir. Muitas vezes, a intenção é genuinamente cuidar e proteger. O problema é que, pouco a pouco, o idoso pode deixar de ser consultado sobre a própria vida. E aquilo que começou como cuidado pode acabar sendo vivido como perda de autonomia.
Na clínica, eu percebo como essa mudança pode ser dolorosa para a pessoa idosa. Há pacientes que não dizem diretamente “estão me tratando como criança”, mas expressam isso de outras maneiras: “ninguém mais pergunta o que eu quero”, “meus filhos decidem tudo” ou “parece que eu não tenho mais opinião”. Essas falas revelam algo muito importante: não estamos falando apenas de escolhas cotidianas, mas de identidade, dignidade e pertencimento. Afinal, uma pessoa não deixa de ter uma história, desejos e opiniões porque envelheceu. O envelhecimento pode trazer novas necessidades, mas não apaga a pessoa que existe por trás da idade.
É importante fazer uma distinção: precisar de ajuda não significa perder autonomia. Uma pessoa idosa pode precisar de auxílio para administrar medicamentos, organizar compromissos, realizar determinadas tarefas ou tomar algumas decisões e, ainda assim, participar ativamente da própria vida. Cuidar não deveria significar substituir completamente a vontade do outro. Quando possível, é fundamental perguntar: “O que você prefere?”, “Como você gostaria de fazer?” ou “O que você acha dessa decisão?”. São perguntas simples, mas que comunicam algo muito poderoso: “A sua opinião ainda importa.”
O problema aparece quando o cuidado passa a substituir a autonomia. O filho escolhe a roupa porque acredita que sabe o que é melhor. Decide o cardápio porque considera mais adequado. Determina quando o pai ou a mãe deve sair, descansar ou receber visitas. Em algumas situações, isso pode até ser necessário por questões de segurança ou limitações funcionais, mas precisa ser analisado com cuidado. Na prática clínica, procuro sempre pensar: o que essa pessoa realmente não consegue fazer e o que estamos fazendo por ela apenas porque é mais conveniente para nós? Essa diferença é fundamental para preservar a independência possível.
A infantilização também pode aparecer na própria maneira de falar. Usar um tom excessivamente infantil, chamar o adulto por apelidos que ele não gosta, falar sobre ele na sua frente como se ele não estivesse presente ou conversar com terceiros sobre decisões que dizem respeito a ele são atitudes que podem diminuir sua participação. Talvez para quem faz pareça algo pequeno, mas para quem recebe pode transmitir uma mensagem muito dolorosa: “Você não é mais capaz”. Por isso, mesmo quando existem limitações cognitivas ou físicas, devemos buscar preservar o máximo possível a capacidade de escolha e participação da pessoa idosa.
Outro aspecto que considero importante é que, muitas vezes, a família também está sofrendo. Filhos podem sentir medo de que algo aconteça, dificuldade em aceitar o envelhecimento dos pais ou culpa por não conseguirem estar presentes o quanto gostariam. Então, controlar pode ser uma tentativa de diminuir a própria ansiedade. É por isso que não acredito que a questão seja simplesmente apontar o dedo para a família e dizer que ela está errada. Precisamos compreender a dinâmica como um todo e construir formas mais saudáveis de cuidado. Cuidar de alguém também significa aprender a respeitar os limites, desejos e possibilidades dessa pessoa.
A psicoterapia pode ser um espaço muito importante nesse processo. Na clínica, vejo que falar sobre envelhecimento permite trabalhar questões que muitas vezes ficam escondidas: medo da dependência, perdas, mudanças familiares, solidão, autoestima, aposentadoria, novas limitações e a própria percepção de quem se é nessa fase da vida. Para a pessoa idosa, a terapia pode representar um lugar onde sua história é escutada sem que ela seja reduzida à idade ou às suas dificuldades. Para a família, pode ajudar a compreender como oferecer suporte sem retirar desnecessariamente a autonomia de quem está envelhecendo.
Na Longevos Psicologia, acredito que envelhecer também significa poder continuar sendo protagonista da própria história. A psicoterapia para pessoas idosas não precisa existir apenas quando há um sofrimento intenso ou uma doença instalada; ela também pode ser um espaço de prevenção, adaptação, autoconhecimento e construção de uma vida com mais sentido. Se você percebe que seu pai, sua mãe, avó, avô ou outro familiar está sofrendo com as mudanças do envelhecimento, talvez seja hora de olhar para essa dor com mais atenção. Cuidar da saúde emocional também é uma forma de cuidar da longevidade. Na Longevos, oferecemos psicoterapia online para todo o Brasil, psicoterapia domiciliar e atendimento presencial em Lauro de Freitas-BA.
