Alécia Lustosa Reis
Graduanda em Psicologia
Diante de brigas conjugais, a expressão “em briga de marido e mulher não se mete a colher” era comumente utilizada como justificativa para a não intervenção em situações de conflito nas relações. Contudo, será que se trata apenas de uma “discussão de casal” ou esse ditado reflete violências que foram se naturalizando ao longo do tempo?
Quem vive em relacionamentos abusivos nem sempre percebe as violências, por serem confundidas com demonstrações de amor, proteção ou até ciúmes. Zibenberg e Costa (2022) explicam que, nos relacionamentos abusivos, as violências podem passar despercebidas por serem praticadas de forma sutil, por meio de gestos, falas e comportamentos que nem sempre deixam marcas visíveis, mas geram um grande sofrimento. O relacionamento se torna abusivo quando uma pessoa impõe seu poder e controle sobre a outra, através de diferentes formas de violência, como física, psicológica, moral, sexual, patrimonial ou perseguição.
Conforme dados do Ministério da Saúde, em 2018, 91,5% das notificações de violência por parceiro íntimo (VPI) foram denunciadas por mulheres (Brasil, 2020). Ademais, somente em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, sendo a maioria dos crimes cometidos por parceiros íntimos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2026). Entretanto, a VPI também afeta homens, ainda que em menor proporção, e esses casos carecem de mais atenção.
Para mais, é possível compreender o funcionamento do ciclo da violência conjugal através das fases descritas pela psicóloga Lenore Walker (1979). Inicialmente, ocorre um período de acúmulo de tensão crescente que pode durar por meses ou anos. Os abusos incluem, por exemplo, humilhações, constrangimentos, intimidações, ameaças, perseguições, chantagens e desqualificação do(a) parceiro(a), muitas vezes disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Em seguida, a tensão atinge o ápice e a violência se manifesta de forma mais evidente. Após as agressões, surge a fase da lua de mel, em que o(a) agressor(a) demonstra arrependimento, afeto e promessas de mudança, criando uma falsa sensação de segurança e esperança na relação, contribuindo para a permanência da vítima no relacionamento.
As consequências dos atos violentos são marcadas por sofrimento emocional intenso, culpa, medo, vergonha, constrangimento e insegurança (Mendonça; Ludermir, 2017). Além disso, a exposição contínua à violência pode favorecer o desenvolvimento de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, uso abusivo de substâncias, maior risco de suicídio e outros prejuízos à saúde (Brasil, 2020). Nesse contexto, o acompanhamento psicológico oferece um espaço seguro de acolhimento e escuta qualificada. Como também, auxilia a vítima a reconhecer situações de violência, elaborar os impactos emocionais, fortalecer sua autonomia e autoestima, ajuda na construção de estratégias de prevenção e proteção, e no fortalecimento da rede de apoio. Além disso, o enfrentamento da violência conjugal não acontece de forma isolada, pois exige a atuação articulada com as redes de proteção e assistência. Os Centros de Referência e Atendimento à Mulher e CREAS oferecem serviços especializados em acolhimento, orientação e encaminhamentos que contribuem para a segurança e garantia de direitos das vítimas.
Apesar de muitas situações de violência serem tratadas como “problemas do casal”, seus impactos ultrapassam a esfera privada e afetam profundamente a saúde física, emocional e social das vítimas. Reconhecer os sinais de abuso, romper o silêncio e buscar ajuda são passos fundamentais para interromper ciclos de violência. O enfrentamento da violência conjugal é uma responsabilidade coletiva que exige informação, acolhimento e o fortalecimento das redes de proteção.
Fonte: Marcos Santos/USP Imagens, reproduzido de Câmara Municipal de Belo Horizonte (2020).
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico. Violência por parceiro íntimo contra homens e mulheres no Brasil: dados da vigilância de violências e acidentes. Brasilía, v. 51, n. 49, dez. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2020/boletim_epidemiologico_svs_49.pdf. Acesso em: 13 jun. 2026.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Retrato dos feminicídios no Brasil. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf. Acesso em: 13 jun. 2026.
MENDONÇA, M. F. S. de; LUDERMIR, A. B. Violência por parceiro íntimo e incidência de transtorno mental comum. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 51, p. 1-8, jan/ago. 2017. DOI: https://doi.org/10.1590/S1518-8787.2017051006912. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/672/67249591143.pdf. Acesso em: 13 jun. 2026.
WALKER, L. E. The Battered Woman. New York: Harper & Row, 1979.
ZIBENBERG, Daniela; COSTA, Letícia Bandeira de Mello da Fonseca. O Que é Abusivo: Uma Revisão Sobre Relacionamentos Abusivos. Editora e-publicar: Psicologia e Cultura: Abordagens, reflexões e implicações da psicologia na sociedade contemporânea, v. 1, cap. 3, p. 29-45. 2022. DOI: 10.47402/ed.ep.c2311283289. Disponível em: https://editorapublicar.com.br/ojs/index.php/publicacoes/article/view/670/377. Acesso em: 13 jun. 2026.
