Por Paulo Roberto Reis
Psicólogo/ Mestre em Estudo de Linguagens
Especialista em Longevidade
Há uma ideia sobre o envelhecimento que ainda precisamos questionar: a de que, depois de determinada idade, a pessoa deveria se afastar das grandes decisões da sociedade. Como psicólogo e como alguém que trabalha diariamente com pessoas idosas, penso justamente o contrário. Envelhecer não significa deixar de participar, de opinar, de escolher e de se posicionar diante do mundo. A experiência acumulada ao longo de décadas também constitui uma forma de conhecimento. E, em uma democracia, conhecimento, memória e experiência não deveriam ser silenciados. O voto pode ser, portanto, também uma expressão de autonomia, cidadania e pertencimento.
Os números ajudam a dimensionar a importância dessa conversa. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, em agosto de 2025 havia 16.063.940 eleitoras e eleitores com 70 anos ou mais, correspondendo a 10,37% do eleitorado brasileiro. Para essa população, o voto é facultativo. Mas existe uma diferença importante entre dizer “você não é obrigado a votar” e transmitir a ideia de que “seu voto não é mais importante”. São coisas completamente diferentes. A facultatividade é uma garantia de liberdade; não é uma declaração de irrelevância. O próprio TSE vem desenvolvendo ações para ampliar a participação eleitoral da população com 70 anos ou mais e reforçar o reconhecimento desse grupo como parte ativa da democracia (BRASIL, 2025).
Os dados das Eleições Municipais de 2024 também nos fazem pensar. O comparecimento foi de 66,43% entre pessoas de 70 a 74 anos e de 49,55% entre aquelas de 75 a 79 anos. Esses números, sozinhos, não permitem concluir que exista desinteresse político entre os mais velhos. Há outros fatores envolvidos, como condições de mobilidade, acessibilidade, saúde, transporte e até experiências de preconceito etário. A própria Justiça Eleitoral registrou relatos de pessoas idosas desencorajadas a votar. Por isso, quando falamos em participação eleitoral na velhice, precisamos falar também em condições concretas para que essa participação aconteça com autonomia e dignidade (BRASIL, 2025).
Uma revisão de escopo publicada em 2026 amplia ainda mais essa discussão. Lai et al. (2026) analisaram a produção científica internacional sobre participação cívica de pessoas idosas e encontraram diferentes formas de participação, incluindo voluntariado, defesa de direitos, participação política e ajuda comunitária. O estudo também identificou fatores que podem favorecer ou dificultar essa participação, como redes sociais, educação, políticas públicas, condições de saúde, preconceito etário, barreiras de acesso e condições socioeconômicas. Um aspecto particularmente importante é que a literatura ainda dedica pouca atenção aos chamados oldest-old, ou seja, aos grupos de idade mais avançada, incluindo pessoas residentes em instituições de longa permanência. A velhice, portanto, não pode ser tratada como uma experiência única e homogênea (LAI et al., 2026).
Essa discussão encontra a saúde mental de uma maneira que, para mim, é especialmente significativa. Saúde mental não acontece somente dentro de um consultório, em uma sessão de psicoterapia ou diante de um diagnóstico. Ela também se relaciona com pertencimento, autonomia, relações sociais, possibilidade de escolha e participação na comunidade. Em estudo qualitativo com 782 pessoas idosas de Portugal, Brasil e Inglaterra, com idades entre 65 e 88 anos, von Humboldt et al. (2024) encontraram relatos que relacionavam a participação cívica a elementos como sentido de propósito, percepção de agência, integração social e expressão emocional. O estudo também mostrou como experiências de preconceito etário podem dificultar a participação na vida cívica e estar associadas a experiências negativas de saúde mental (VON HUMBOLDT et al., 2024).
É nesse ponto que faço uma conexão com a minha prática profissional. Quando digo que saúde mental também se faz através do voto consciente, não estou dizendo que votar seja uma intervenção psicológica ou que uma pessoa necessariamente terá melhor saúde mental porque votou. Seria uma conclusão que a ciência disponível não permite fazer dessa maneira. Estou falando de algo mais amplo: da importância de preservar, ao longo do envelhecimento, espaços de autonomia, participação, pertencimento e tomada de decisão. Como psicólogo, não tenho um partido político para defender no exercício da minha profissão. Tenho, porém, causas e princípios que considero inseparáveis do meu compromisso com a Psicologia: a defesa da vida, da dignidade humana, da autonomia e do respeito às pessoas, especialmente aquelas em situações de vulnerabilidade física, social e econômica.
Por isso, considero tão importante conversar sobre política com as pessoas mais velhas sem infantilizá-las. Não precisamos dizer ao idoso o que ele deve pensar. Não precisamos escolher por ele. Não precisamos presumir que, por ter determinada idade, ele não compreenderá as questões contemporâneas. Precisamos fazer o contrário: oferecer informação, acessibilidade, tempo para reflexão e respeito à sua autonomia. Nas Eleições de 2026, por exemplo, a Justiça Eleitoral reafirma direitos específicos das pessoas idosas, como atendimento prioritário, prioridade absoluta para pessoas com mais de 80 anos, recursos de acessibilidade e possibilidade de apoio durante a votação para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida (BRASIL, 2026). Garantir essas condições também é reconhecer que envelhecer não significa perder o lugar de cidadão.
Há algo profundamente simbólico no ato de uma pessoa de 70, 80, 90 ou mais anos chegar a uma urna e fazer uma escolha. Talvez ela tenha acompanhado diferentes períodos políticos, transformações sociais, crises econômicas, mudanças culturais e profundas transformações na própria família. Talvez tenha filhos, netos e bisnetos e esteja pensando justamente no mundo que deixará para eles. Seu voto não precisa ser tratado como obrigação; pode ser compreendido como uma possibilidade de continuar participando da sociedade. E, quando falamos de envelhecimento saudável, talvez devêssemos incluir também essa dimensão: viver mais não é apenas acrescentar anos à vida, mas continuar encontrando maneiras de participar dela.
Que possamos, portanto, conversar com nossos pais, avós, pacientes, amigos e familiares idosos sobre cidadania sem transformar essa conversa em disputa política. Perguntar o que eles pensam. Incentivar que procurem diferentes fontes de informação. Ajudar quando houver dificuldade de acesso à tecnologia ou ao local de votação. Respeitar quando suas opiniões forem diferentes das nossas. E lembrar que consciência não significa concordância: significa poder escolher com liberdade, informação e responsabilidade. Para mim, cuidar da saúde mental também passa por defender autonomia, pertencimento e dignidade. E uma sociedade que respeita seus mais velhos é aquela que não os retira da conversa sobre o futuro, convida-os a continuar fazendo parte dela.
Referências
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Voto do eleitorado 70+ é fundamental para a cidadania e a democracia brasileiras. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 1 out. 2025. Atualizado em 8 jul. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2025/Outubro/voto-do-eleitorado-70-e-fundamental-para-a-cidadania-e-a-democracia-brasileiras-7. Acesso em: 23 set. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Manual do Eleitor: conheça os direitos do eleitorado idoso nas Eleições 2026. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 6 ago. 2026. Atualizado em 20 ago. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Agosto/manual-do-eleitor-conheca-os-direitos-do-eleitorado-idoso-nas-eleicoes-2026. Acesso em: 23 set. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resolução nº 23.759, de 2 de março de 2026. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/codigo-eleitoral/normas-editadas-pelo-tse/resolucao-n-23759-de-2-de-marco-de-2026-brasilia-df. Acesso em: 23 set. 2026.
LAI, C. K. Y.; ANNICHICHIARICO, C.; HARRIS, M. L.; ASHCRAFT, A.; MONTAYRE, J. R.; JONES, C. J. Understanding civic participation of older adults: a scoping review. Archives of Gerontology and Geriatrics, v. 149, p. 106291, 2026. DOI: 10.1016/j.archger.2026.106291. Disponível em: PubMed – Understanding civic participation of older adults. Acesso em: 23 set. 2026.
VON HUMBOLDT, Sofia; COSTA, Andrea; ILYAS, Namrah; LEAL, Isabel. Older adults, perceived ageism, civic participation and mental health: a qualitative study. Aging & Mental Health, v. 28, n. 11, p. 1489-1501, 2024. DOI: 10.1080/13607863.2024.2348611. Disponível em: PubMed – Older adults, perceived ageism, civic participation and mental health. Acesso em: 23 set. 2026.
